Qual foi a última vez que você chorou?
Chorou sem vergonha do choro?
Sem o impulso imediato de contê-lo, de engoli-lo, de adiá-lo para depois?
Sem achar que era uma bobagem ou sem repetir para si mesmo que “não tenho nem tempo para chorar”?
Essas perguntas podem soar simples, mas não são triviais. Elas tocam algo fundamental da nossa experiência subjetiva: a nossa relação com o sofrimento, com a dor e, sobretudo, com os afetos.
Talvez você se pergunte por que insistir nessa questão.
Chorar é importante? Vale mesmo pensar sobre isso?
Do ponto de vista psicanalítico, chorar diz da nossa capacidade de nos afetar. Diz da possibilidade de sermos atravessados por experiências, perdas, encontros e desencontros. E isso é, sim, muito importante.
Freud já dizia que, “aonde quer que eu vá, descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. A poesia, muitas vezes, alcança antes aquilo que a teoria tenta nomear depois. E, sobre o chorar, Juçara Marçal e Kiko Dinucci chegaram a esse lugar de forma especialmente sensível na canção “Mar de lágrimas”.
Segue um trechinho:
“Chora sem pudor
Chora até não poder mais
Chora pela flor que murchou feito promessa
Chora com razão, porque chorar é sentimento,
É sombra de um momento
Na luz do nascimento,
Da morte um passaporte para luz
A dor é mal estar, descaso a sofrimento
É arrependimento de não chorar…”
A letra nos convida a um choro sem pudor.
Um choro que não se envergonha de existir.
Um choro que pode ir até não poder mais.
Há algo muito potente nessa ideia de que a dor é mal-estar quando há descaso com o sofrimento. Quando não se reconhece o que dói, quando não se legitima o afeto, o choro que não acontece pode retornar como endurecimento, como anestesia, como afastamento de si.
Isso nos leva a uma pergunta inevitável: será que vivemos hoje em uma época de descaso com o sofrimento?
Tudo indica que sim. Vivemos em um mundo de hiperestimulação, de incentivo constante à euforia, à produtividade, ao desempenho. Um mundo que frequentemente nos convoca a seguir em frente rápido demais, sem pausa, sem elaboração, sem luto.
Ainda assim, as flores continuam murchando. E algumas perdas, algumas dores, merecem nosso choro.
Fazer um movimento de introspecção, permitir-se sentir o que tiver que ser sentido, não é fraqueza. É um gesto de cuidado. É a possibilidade de resgatar algo da nossa humanidade em meio ao excesso de estímulos e exigências.
Individualmente, isso pode fazer bem à alma.
Coletivamente, pode ser um ato político.
Um ato de não nos deixarmos capturar por discursos que tentam nos separar dos nossos afetos — especialmente daqueles que doem. Um gesto silencioso, mas potente, de resistência à lógica que transforma sofrimento em falha pessoal ou em algo a ser rapidamente silenciado.
No mais, fica o convite: escute essa música como quem recebe um presente.
E, se der vontade de chorar, chore.
Talvez aí exista algo que ainda insiste em viver.
