Princesa de Troia, considerada a filha mais bela do rei, Cassandra ficou conhecida por ter o dom da premonição, mas também a maldição de que ninguém acreditava em suas profecias.
Há várias versões sobre como adquiriu seu dom/maldição. Uma delas diz que o deus Apolo, após apaixonar-se por ela, concede-lhe o dom da profecia em troca de poder deitar-se com ela. Quando Cassandra o recusa, ele, furioso, transforma seu dom em maldição.
Durante a Guerra de Troia, ela prevê vários acontecimentos, inclusive a queda da cidade, mas ninguém lhe dá ouvidos. Tida como louca e perigosa por abalar a moral das tropas, é trancada em uma torre por seu pai.
Quando Troia é invadida, Cassandra busca refúgio no templo de Atena, um local sagrado. De lá, é arrancada por Ájax e violentada por ele, que não sofre nenhum castigo por parte dos demais, sendo punido apenas posteriormente pela deusa.
Ao final, tomada como cativa pelo rei Agamenon, prevê a própria morte pelas mãos da esposa dele. Mais uma vez, é desacreditada e acaba aceitando seu destino trágico.
Podemos pensar em Cassandra como uma mulher abusada e silenciada de diversas formas, por diferentes homens. E, se evoluímos enquanto sociedade em alguns aspectos, em outros parece que nem tanto.
Quantas mulheres deixam de denunciar uma violência pelo medo de serem desacreditadas?
Quantas mulheres são tidas como loucas, exageradas ou histéricas simplesmente por se posicionarem?
Quantas mulheres têm suas ideias desvalorizadas ou usurpadas em ambientes de trabalho pelo fato de serem mulheres?
Quantas mulheres tentam se proteger de homens abusadores por meios legais, mas acabam, ainda assim, prevendo a própria morte?
Lembrei-me desse mito após a discussão mais recente sobre episódios de apagamento e assédio em ambientes psicanalíticos, que, como toda instituição, são formados por seres humanos com seus dilemas e contradições.
Devemos sempre ter em mente que a luta feminina contra as forças que tentam nos empurrar para a margem é constante e que nossos espaços ainda não estão plenamente assegurados.
Que, inspiradas por Cassandra, não deixemos que a recusa do outro nos afaste de nossas percepções e convicções — e que sigamos podendo falar e ser ouvidas.
